terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Edson Arantes do Nascimento - Pelé

Em 1958, no Campeonato do Mundo, realizado na Suécia, era um menino com 17 anos. Mas, a despeito da timidez, Edson Arantes do Nascimento, Pelé para o resto da vida, já não era um menino qualquer.
Começou no Bauru Atlético Clube como júnior, descoberto por Valdemar de Brito, antigo internacional brasileiro participante na primeira edição do Campeonato do Mundo.
Em Setembro de 1956 estreou-se na equipa principal do Santos, frente ao Corinthians. Marcou um dos 36 golos com que terminou essa edição do campeonato paulista.
Em Julho de 1957, com 16 anos (nasceu a 23 de Outubro de 1940), chegou à selecção brasileira, num Brasil-Argentina, e selou a primeira de 92 internacionalizações com o primeiro dos 77 golos que apontou pelo escrete.
No Mundial da Suécia tinha 17 anos. Não fora pacífica a sua convocação (como a de Garrincha). Grandes jogadores foi coisa que nunca faltou no Brasil e muitas foram as estrelas afastadas da lista final do seleccionador Vicente Feola. Para agravar legitimidade das hesitações, Pelé vinha de uma lesão. Feola deixou-o de fora (tal como Garrincha), nos dois primeiros jogos. O empate a zero com a Inglaterra, exibições menos conseguidas e a pressão dos restantes jogadores pesaram na decisão do técnico: actuou no terceiro encontro, com a União Soviética. O Brasil ganhou por 2-0 e até final não mais saiu do onze.
Contribuiu com seis golos para o primeiro título mundial dos canarinhos, dois deles obtidos na final (marcou três à França, nas meias-finais, e foi dele o tento solitário que selou o triunfo sobre o País de Gales nos, quartos-de-final). Estava lançada a carreira daquele que, ainda hoje, é considerado o expoente máximo do futebol, o mais genial de todos os jogadores do século XX… tricampeão do Mundo (1958, 1962 e 1970), autor de 1283 golos em partidas oficiais, símbolo maior de um desporto que, se foi injusto para muitos, soube preservar a imagem daquele que, quase instintivamente, elegeu como o melhor de sempre.
Apesar dos números, reveladores de aptidão indiscutível para se movimentar na zona de finalização, Pele foi muito mais que mero ponta-de-lança: diabólico com a bola nos pés, rapidíssimo a executar, senhor de remate fabuloso, tinha estrutura física que lhe permitia resistir ao choque e abranger uma zona de terreno que não apenas a grande área. Era também um grande driblador, com visão de jogo extraordinária, que pensava mais depressa, que via mais longe. Não menos importante, dispunha de todos os argumentos necessários a um cabeceador exímio: elevação, tempo de salto e técnica perfeita no contacto com a bola.
Despediu-se da selecção em 1971 e deixou o Santos em 1974, para assumir papel preponderante na expansão do futebol nos Estados Unidos.
Ao serviço do Cosmos, de Nova Iorque, sagrou-se campeão e em Outubro de 1977 pendurou definitivamente as botas.



Vídeo - Pelé

sábado, 24 de janeiro de 2009

Gerd Müller

Quando foi o melhor marcador do Mundial do México e eleito Bola de Ouro no referendo anual do France Football, em 1970, Gerd Müller já tinha uma história de golos. Muitos golos. Não é fácil encontrar um animal de área assim, tão intuitivo, tão repentista, tão bom a utilizar o corpo para guardar a bola até ao momento de rematar à baliza.
Era baixote, tinha alguns quilos a mais para a estrutura física que possuía mas foi único recordista de golos marcados na Bundesliga, na selecção alemã e nas competições europeias de clubes.
Chegou ao Bayern Munique em 1964, tinha então 19 anos (nasceu a 3 de Novembro de 1945). Ao serviço do TSV Nördlingen, equipa da terra natal que jogava o campeonato regional sul, fez a primeira época como sénior. Marcou 33 golos em 26 jogos. Ao serviço do Bayern prosseguiu a saga de números que alimentou até 1979, durante 15 anos absolutamente extraordinários, ao longo dos quais foi campeão do Mundo e da Europa, três vezes vencedor da Taça dos Campeões, uma vez da Taça Intercontinental, outra da Taça das Taças, para além de quatro títulos alemães e outras tantas vitórias na taça do seu país.
Contabilizando as cinco épocas que efectuou, em final de carreira, nos Estados Unidos, Müller marcou 405 golos em 507 jogos a contar para campeonatos da divisão principal. Em 62 jogos pela selecção contabilizou 68 golos, menos um em relação aos que obteve nas competições europeias. Verdadeiramente impressionante.
Quando Helmut Schön lhe confiou a tarefa de comandar o ataque alemão, em 1974, Gerd Müller estava a caminho dos 29 anos e sagrara-se meses antes campeão europeu de clubes, contribuindo à sua maneira (sempre com golos) para interromper o ciclo de triunfos do Ajax.
Tornou pública a intenção de não voltar a representar a Alemanha depois do Campeonato do Mundo. Desse modo despediu-se a 7 de Julho marcando o golo que deu a vitória sobre a Holanda, aquele que permitiu aos alemães a conquista do título.
Nos anos de domínio europeu do Bayern Munique, que durariam até 1976 (três vitórias consecutivas), Müller foi considerado, sem discussão, o melhor ponta-de-lança do Mundo, na concepção restrita da função, como avançado de área, como marcador de golos.
Com o tempo, foi perdendo velocidade, mas não a arte de movimentar-se no seu espaço, com o saber de quem conhece todos os cantos à casa.
Em 1977/78, já trintão, ainda foi o melhor marcador da Bundesliga, com 24 golos. Em 1979, seguindo as pegadas de Franz Beckenbauer, foi para os Estados Unidos. Em três épocas, até 1981, ainda conseguiu marcar 40 golos.
Em 1982 decidiu que tinha chegado a hora da retirada. Como a vida sem golos não tinha o mesmo encanto, entrou em depressão. Substituiu-os pelo álcool. Foi Uli Höness, companheiro de muitas batalhas, entretanto nomeado director desportivo do Bayern Munique, quem lhe deu a mão. Em nome da amizade, do Bayern e do futebol alemão. Totalmente recuperado, Müller é hoje uma espécie de embaixador do clube que ajudou a elevar aos píncaros da glória.



Vídeo - Gerd Müller

Johan Cruyff

Rinus Michels elegeu-o entre as dezenas de miúdos que encontrou quando regressou ao Ajax para orientar as camadas jovens de um clube pelo qual passara como jogador. Estávamos em 1963, tinha Johan Cruyff 16 anos (nasceu a 25 de Abril de 1947), de uma vida passada, toda ela, ao lado do De Meer, velho estádio que seria demolido já nos anos 90.
Um ano depois, Michels foi promovido à equipa principal. E levou com ele a jóia da coroa. Em 1964/65, com 17 anos, Cruyff estreou-se na I Divisão holandesa.
Toda a dimensão do futebol total havia de crescer com ele. Quando atingiu a maturidade plena, por volta dos 23/24 anos, à sua volta girava uma das mais avassaladoras máquinas que o futebol conheceu. Nessa altura, Johan já era o melhor da Europa (eleito Bola de Ouro em 1971, 1973 e 1974), um dos melhores do Mundo e um jogador para a eternidade, como tinham sido Puskas, Di Stefano, Pelé e Eusébio. Os fundamentos do jogo inovador, nascido a partir do laboratório holandês, têm várias formas de explicação, mas uma não oferece dúvidas: precisava imperiosamente de um líder em campo. E esse líder foi Johan Cruyff, génio na execução e na concepção (como viria a mostrar mais tarde quando passou a treinador), físico potenciado para lá dos limites imagináveis, em função da estrutura genética. Era um portento de velocidade, tinha resistência e potência surpreendentes para aquele corpo franzino, dominava todas as zonas do terreno, todas as fases do jogo e revelou noção colectiva extraordinária, não obstante ter sido, em todas as equipas em que actuou, a figura mais brilhante, a estrela da companhia. Por isso, sempre que lhe perguntavam qual tinha sido o melhor jogador do Mundo, não respondia Pelé mas Di Stefano, «porque era mais completo».
Johan Cruyff deu ao futebol uma dimensão diferente. O grande Ajax começou em Michels, acabou em Kovacs mas encontrou nele o elo de ligação indiscutível. Foi tricampeão europeu e saiu para o Barcelona.
Em 1973/74 partiu ao encontro da fortuna. Foi campeão de Espanha, na mesma época em que o Ajax perdia o domínio do futebol europeu, eliminado pelo CSKA Sófia à 2.ª eliminatória.
No Mundial de 1974 brilhou a laranja mecânica. E brilhou Cruyff. Vinte anos depois da Hungria de Puskas a história repetia-se: a Holanda inovadora e espectacular cedeu na final, curiosamente perante o mesmo carrasco, a Alemanha. Seria a primeira e última vez que o génio pisaria o grande palco. Em 1978, com 31 anos, nem a rainha da Holanda o demoveu da intenção de não actuar na Argentina.
Jogaria até 1984. Ironia do destino: depois de passagem pelos Estados Unidos acabaria no... Feyenoord. Nessa época, actuando mais recuado, levou o rival à dobradinha. Terminava vitoriosa uma carreira em cujo palmarès só faltou o triunfo no Mundial. O resto é impressionante: oito campeonatos e cinco taças da Holanda; três Taças dos Campeões; uma Taça Intercontinental; um campeonato e uma taça de Espanha; duas Supertaças Europeias.
Pelo excepcional jogador que foi e pelo treinador revolucionário que havia de ser, Johan Cruyff chegou ao fim do século XX como a maior figura do futebol dos últimos 30 anos.



Vídeo - Johan Cruyff

Manuel Francisco dos Santos, Garrincha

Dominou, quase por inteiro, o Mundial de 1962. Era um menino grande de pernas arqueadas, corpo franzino, para quem a vida só fazia sentido se tivesse uma bola nos pés e um adversário para driblar. Manuel Francisco dos Santos, Garrincha para o bem e para o mal, terá sido mesmo o maior driblador da história do futebol. Não dispunha de reportório vasto mas o que tinha era suficiente para marcar diferenças. A finta era, normalmente, a mesma, todos o sabiam, até aqueles que tinham por missão marcá-lo. Mas passava sempre.
Entre os maiores jogadores de sempre, ninguém como ele, chegou onde chegou, apenas e só à custa do génio, do instinto, da intuição.
Nunca passou de um jogador da bola, ingénuo, despreocupado, e mesmo assim foi um dos maiores artistas que o futebol conheceu.
Participara na conquista do Mundial de 1958 como miúdo que saiu do banco ao fim do segundo jogo (juntamente com Pelé). Chegava ao Chile com o estatuto de grande talento e arma assustadora.
No segundo encontro da prova, frente à Checoslováquia, Pelé, a estrela da companhia, lesionou-se com alguma gravidade. Não jogaria mais naquela edição. Amarildo substituiu-o bem, mas foi Garrincha, por instinto, como sempre, quem assumiu a responsabilidade de fazer esquecer o rei, assim no jeito de quem diz a todos, mas principalmente aos companheiros de equipa, «se não está Pelé, não se preocupem, estou cá eu». E esteve sempre.
Participou na esmagadora maioria dos 14 golos apontados pelo escrete, três dos quais da sua autoria, dois deles na meia-final com o Chile (vitória por 4-2), e foi indiscutivelmente a grande figura da prova. O Brasil deve-lhe o segundo título mundial. Essa dívida, a que teremos de juntar os momentos mágicos que proporcionou ao longo da carreira e a personalidade frágil, infantil mesmo, que sempre evidenciou, transformou-o num mito entre os compatriotas.
Quando deixou de jogar, tornou mais visíveis os traços do seu carácter e a tendência natural para uma vida desregrada, que terminou cedo e mal.
Mané Garrincha, a alegria do povo, o mestre do drible, protagonista principal de muitas tardes e noites de glória para o Botafogo e para o Brasil, acabaria os seus dias na miséria, entregue ao álcool, vítima da teia que deixou crescer à sua volta. Recordado pelo génio, Garrincha permanece no coração dos brasileiros como o mais genuíno dos seus heróis. O futebol em geral deve-lhe respeito e admiração. E o agradecimento que os talentos únicos justificam.


Vídeo - Garrincha


Sebastião Lucas da Fonseca - Matateu

Foi o primeiro grande fenómeno nacional que o futebol deu ao País: Sebastião Lucas da Fonseca, eternizado sob o nome de Matateu, um dos mais extraordinários jogadores portugueses de todos os tempos. E o fenómeno atinge eloquência máxima se considerarmos que passou a fase dourada da sua vida ao serviço do Belenenses, clube do qual continua a ser a mais emblemática figura de sempre.
A forma como saiu do Restelo, em conflito aberto com alguns responsáveis, condicionou, definitivamente, uma relação que devia ser saudável, por estar destinada a ser eterna.
A derrota azul no Campeonato de 1954/55 teve carga emocional indiscutível. Foi também a origem do declínio belenense. Mas esse desaire tem, igualmente, um significado individual determinante: privou Matateu de um título nacional, mais que merecido, pelo que fez ao longo de uma carreira única. O jogador mais popular e que mais longe chegou fora do circuito Benfica, F. C. Porto, Sporting, apenas conseguiu vencer uma Taça de Portugal (59/60).
Quando Matateu desembarcou em Lisboa, vindo de Lourenço Marques, a 4 de Setembro de 1951, ninguém podia prever que estava a chegar o furacão que abalaria o futebol português durante uma década.
No dia 24 de Setembro estreou-se oficialmente, na primeira jornada do Nacional. O Belenenses bateu o Sporting por 4-3, com dois golos da sua autoria. Era apenas o início de uma caminhada que chegou ao fim com números impressionantes: 218 golos na I Divisão (nove com a camisola do Atlético), 13 ao serviço da Selecção Nacional (em 27 presenças) e três na Taça das Feiras.
Matateu era um jogador fabuloso. Se os avançados vivem permanentemente na dependência dos companheiros, o mínimo que dele se pode dizer é que decidiu muitos jogos sozinho. À custa de um instinto felino, de uma rapidez de execução surpreendente, de drible normalmente curto e, sobretudo, à potência e certeza do remate com ambos os pés. Era um mágico que transformava coisa nenhuma em momentos inesquecíveis. Dele se diz que nasceu adiantado no tempo. Dele se diz que o azar foi ter vindo para o Belenenses. Dele se diz muita coisa que não tem cabimento nesta altura. Porque o que dele se dirá para sempre é que, entre os grandes, foi dos maiores, de todos.
Em Junho de 1969, partiu para Vitoria, no Canadá. Por lá continuou a jogar, até muito tarde, o que significa, naturalmente, a marcar muitos golos. Viveu, tranquilamente e de boa saúde, a recta final de uma vida intensa, sempre com pouca vontade de voltar a pisar território português. Marcas que o tempo não conseguiu apagar.

Ferenc Puskas

Pertence à restrita galeria dos imortais, dos maiores jogadores de todos os tempos: Ferenc Puskas.
Nascido a 2 de Abril de 1927, em Budapeste, cedo revelou dotes de goleador extraordinário. Esquerdino puro, era um avançado-centro temível, explosivo como poucos, pela rapidez de execução, velocidade, potência e certeza no remate… no fundo pelo talento dos predestinados.
Se a Hungria foi entre 1952 e1956 a mais brilhante selecção que o futebol conhecera até então (e, feitas as contas, dificilmente será desalojada do pódio), Puskas foi o seu expoente máximo. Para além de tudo o resto, tem ainda o suporte dos números, importante para qualquer ponta-de-lança. E esses não deixam mentir: fez 533 jogos a contar para os campeonatos nacionais (na terra natal e em Espanha) e marcou 511 golos; actuou na selecção húngara 84 vezes (56 das quais na qualidade de capitão) e apontou 83 golos (ainda hoje record mundial).
Começou no Kispesti AC, aos 12 anos, e ali permaneceu até 1949. Transferiu-se depois para o Honved, onde esteve até 1956, altura em que se deu o golpe de estado na Hungria, suportado pela União Soviética. Puskas, à semelhança de alguns dos seus mais ilustres companheiros da selecção (Kocsis, Czibor e Hidegkuti, por exemplo), decidiu abandonar o país. Houve jornais que chegaram a dá-lo como morto. Notíciasinfundadas.
Reapareceu na Áustria, passou por Itália, mas a FIFA suspendeu-lhe a licença, durante dois anos. Manteve-se afastado do futebol durante esse período mas seguro quanto ao futuro: já estava comprometido com o Real Madrid para a época de 1958/59.
Tinha 31 anos, quando chegou a Espanha. Ao serviço dos madrilistas prosseguiu a carreira ao nível do monstro que foi.
Quando parou de jogar, em 1967, aos 40 anos, tinha deixado para trás o rasto de maior goleador de sempre que o futebol conheceu. Com muitos títulos na bagagem e a maior de todas as frustrações: não ter aproveitado a oportunidade única de ganhar aquele Mundial de 1954. Lamento comum a todos os amantes do futebol.

Vídeo - Ferenc Puskas

Carlos Gomes

Carlos Gomes tinha 18 anos quando se transferiu do Barreirense para marcar, definitivamente, o futebol português e, mais importante, toda uma geração.
Como guarda-redes, Carlos Gomes foi um monstro, talento às carradas, uma compleição física impressionante, elegância incomparável em tudo o que fazia em campo. O temperamento rebelde, a irresistível tentação de não calar a revolta com quem e quando quer que fosse, conduziram-no a uma vida agitada, que transportou muitas vezes para as quatro linhas.
Irreverente e inovador (garante quem o viu, ter nascido um bom par de anos adiantado no tempo), Carlos Gomes foi um grande ídolo dos adeptos do futebol e, principalmente, dos sportinguistas.
A sua vida no Sporting não foi pacífica. Na justa defesa dos seus interesses, entrou em rota de colisão com alguns dos mais importantes dirigentes do clube, a maior parte deles, figuras gradas do antigo regime.
Em 1958, com 26 anos, na plenitude das faculdades físicas e técnicas, foi transferido para o Granada (por um milhão de pesetas!), já sob o espectro de ser opositor do Estado Novo. Seguiu para o Oviedo de onde regressou, em 1961, a Portugal. Não chegou a acordo com o Sporting, pretendeu ir para o Salgueiros (dizia-se que seria ponto de passagem para o Benfica...), acabou no Atlético.
Acusado de violação, que sempre negou ter cometido, atribuindo à PIDE uma cilada para o apanhar, fugiu para Marrocos. Foi no intervalo de um Atlético-Vitória de Guimarães. Tudo preparado, com a conivência dos responsáveis alcantarenses: simulou uma lesão, foi para a cabina e escapou-se. Marrocos foi o seu destino.
Até final da carreira ainda passou pela Argélia e pela Tunísia.
Todos perderam com tanta agitação: o próprio Carlos Gomes, os adeptos (que deixaram de o ver), e o futebol português.
A 7 de Maio de 1958 fez o último jogo pela Selecção. Em 1966 teria 34 anos. Menos um que o titular português no Mundial de Inglaterra, José Pereira.

Rogério Carvalho "Pipi"

Diz quem o viu jogar: foi um génio. Com a bola dominada, corria para os adversários e era vê-los ficar para trás. Tinha a magia dos grandes artistas, a visão dos melhores estrategas, a velocidade dos extremos mais eficazes e um remate (com os dois pés), ao nível dos mais temíveis goleadores. Era um jogador e um homem de elegância extrema. Por isso passou a ser conhecido como “Pipi”. Mas foi tão grande que ainda hoje pertence à pequena elite de quem será recordado com todos os nomes: Rogério Lantres de Carvalho. Confessaria, mais tarde, nunca ter gostado de jogar a extremo, onde passou grande parte da carreira. A sua paixão era ser interior, por ter mais espaço, por estar mais vezes em contacto com esse bem precioso chamado bola, que poucos como ele souberam tratar tão bem.
Quem o viu jogar guarda imagens inesquecíveis. Para a eternidade ficam várias mas uma acima de todas: a erguer a Taça Latina, do alto da tribuna do Estádio Nacional.

Leónidas da Silva - Diamante Negro

«Quando Leónidas faz um golo parece que é sonho, é preciso esfregar os olhos. É a magia negra.» Foi assim que o jornalista francês Raymond Thourmagem retratou a estrela do Mundial de 1938. O Brasil não ganhou mas Leónidas da Silva foi o melhor marcador, mostrou que era o melhor avançado-centro do Mundo, com uma mobilidade que desconcertava, uma elasticidade que encantava. Apontou sete golos, um deles, contra a Polónia, sem sequer ter a chuteira calçada e quando a bola, encharcada pela lama em que a relva se transformara, já pesava toneladas!
Iniciou-se no futebol no Bonsucesso e foi lá que inventou o lance que lhe marcaria toda a vida: o pontapé de bicicleta.
Passou para o Vasco, jogou também no Peñarol de Montevideu, no Botafogo e no Flamengo… onde estava era campeão.
Em 1942 foi contratado pelo São Paulo e recebido "sebastianicamente", como herói. Na sua estreia, contra o Corinthians, record de assistência no Estádio de Pacaembu… e com a sua magia negra, os títulos paulistas de 43, 45, 46, 48 e 49. Por isso lhe chamavam também diamante negro. Ou homem de borracha. Ou simplesmente Leónidas.
Após encerrar a carreira tornou-se comentador radiofónico.



Vídeo - Leónidas da Silva, "Diamante Negro"

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

William Ralph Dean

39 jogos da Premier League e... 60 golos! Essa foi a saga fabulosa de William Ralph Dean, avançado-centro do Everton na temporada de 1928.
Jogador fisicamente poderoso, temido pela capacidade de rematar com ambos os pés e pela força de morteiro das cabeçadas, tinha então apenas 21 anos… e assim se tornou recordista de golos do principal campeonato inglês, nunca mais sendo ultrapassado. E, para colocar a cereja no bolo, fechou as contas com “hat trick”, diante do Arsenal, no último jogo do campeonato. 60 mil espectadores, no seu Goodison Park, em gáudio pela conquista do título inglês. Nas restantes competições averbou mais 22 golos. Ou seja, 82 num ano só.
Adquirido pelo Everton ao Tranmere Rovers, em 1925, Bill Dixie Dean por lá permaneceu até 1938, marcando 349 golos em 399 partidas da liga inglesa, contribuindo de forma decisiva para a conquista, pelo Everton, dos campeonatos de 1927/28 e 1931/32 e da Taça de Inglaterra de 1933.
Em 1938, transferiu-se para o Notts County. Vítima de várias lesões, nove jogos apenas realizou, mudando-se de seguida para o Sligo Rovers, que graças a si atingiu a final da Taça da Irlanda, em 1939.
Estalou a guerra e foi o ponto final numa carreira com 473 golos (37 “hat tricks”) em 502 encontros; 18 tentos foram apontados nas 16 vezes que vestiu a camisola de Inglaterra.

Aos 19 anos, Dean esteve entre a vida e a morte devido a um acidente de moto, no Norte de Gales. Tendo fracturado o queixo e o crânio, os médicos tentaram impedi-lo de continuar a jogar futebol… respondeu-lhes que nem pensar. Para tal, teve de colocar placas de prata nos maxilares… e dois anos depois, o Everton pagou pela sua transferência três mil libras.

Cobrador de impostos e mais tarde funcionário das piscinas de Littlewoods, Bill Dean foi obrigado a reformar-se devido a doença. Em1976, depois de múltiplas operações para lhe retirarem um coágulo, foi-lhe amputada a perna direita.
Quatro anos passados, em pleno Goodison Park, ao assistir à derrota do Everton com o Liverpool, sofreu uma ataque cardíaco, morrendo com 74 anos. A caminho do cemitério, onde se faria a cremação, no préstito pelas ruas de Birkenhead, uma imensidão de gente.



Dixie Dean - Vídeo 1


Dixie Dean - Vídeo 2

Guillermo Stabille - "El Filtrador"

O argentino Guillermo Stabille foi a figura maior da primeira edição do Mundial (1930). Certo, é que foi o seu melhor marcador, com oito golos. E conquistou Montevideu por um capricho do destino. Mas, depois disso, os fados pregaram-lhe grandes partidas.
Quarto de 10 irmãos de uma família oriunda de Itália, o pai emigrara para Buenos Aires nos últimos anos do século XIX. Foi nas ruas da cidade, com uma bola de trapos nos pés, que um técnico do Huracan o descobriu.
Depois de se assumir como o maior goleador do campeonato, em 1926 chamaram-no, enfim, à selecção.
Ganhara, entretanto, o epíteto de “El Filtrador”, pela capacidade com que penetrava na área adversária, em velocidade de cruzeiro.
Para o Uruguai, partiu como suplente de Roberto Cherro, entrando na equipa contra o México, quando o companheiro foi atacado por súbita crise nervosa. Um espanto, quatro jogos, oito golos.
O Génova ofereceu-lhe 25 mil pesos de luvas e um ordenado mensal de 1500 pesos. E, perante tal proposta, arrancou para a terra de onde os pais partiram em busca de fortuna. Benito Mussolini, que se encantou com o modo como jogava, tomou nas próprias mãos o processo de naturalização, mas Stabille nunca haveria de vestir a azzurra.
Na Primavera de 1931, foi vítima de acidente grave, depois de choque com Rapetti, guarda-redes do Alessandria: fractura do perónio, delicada operação, voltando aos relvados apenas a 16 de Outubro de 1932. Logo depois nova desgraça, contra a Fiorentina, outra fractura, dois centímetros acima da anterior.
Não podendo auxiliá-lo na recuperação, o Génova cedeu-o ao Nápoles, mas a sorte não mudou. Foi para o Estrela Vermelha, assumindo a sua direcção técnica. Com a II Guerra Mundial a estalar, regressou à Argentina, tomou conta da selecção até 1958, ganhando a Copa América de 1957. Entretanto foi treinando o San Lorenzo de Almagro, o Estudiantes, o Ferro Carril e o Racing de Avlaneda, com o qual foi tricampeão em 1949, 1950 e 1951.
Faleceu a 27 de Dezembro de 1876 e, quando muitos o recordaram como principal responsável pelo fracasso argentino de 1958, o jornal italiano Il Corrieri Mercantil, de Génova, abria toda a primeira página com as seguintes palavras apenas: «El Filtrador é uma eterna legenda

Víctor Silva - primeira "transferência" portuguesa

Em 1927, o Carcavelinhos, dadas as magníficas actuações que Víctor Silva registava pelo Hóquei Clube de Portugal, tentou adquirir a sua colaboração, o que de certo modo conseguiu, fazendo-o alinhar na Taça Preparação da AFL. Foi o jogador-sensação, marcando golos impressionantes a Benfica, Sporting e Belenenses. Só que ainda não estava oficialmente desvinculado do Hóquei e ao aperceberem-se disso os dirigentes do Benfica lançaram-lhe o canto da sereia… e a troco de 15 contos pela assinatura, mais cinco por mês, contrataram-no.
Nunca ninguém recebera tanto dinheiro pelo futebol em Portugal. Mas foi óptimo o investimento… depressa se tornou o craque encarnado. Marcava golos de extraordinária espectacularidade, sobretudo quando se lançava à bola em acrobáticos saltos de peixe, por vezes, com a bola a três palmos do terreno. A sua cabeça surgia como que por encanto, a desferir remates imparáveis, deixando toda a gente estupefacta. Fazia da bola o que queria. Era um avançado desconcertante, capaz de fechar a jogada à biqueirada ou ao toque de calcanhar! Graças a um poder de impulsão fabuloso, chegava com a cabeça onde alguns guarda-redes não chegavam com as mãos.
Foi igualmente vedeta no hóquei, trabalhando com o stick como um artista de circo. Como futebolista, participou nos Jogos Olímpicos de Amesterdão.
Tinha apenas 28 anos quando, em 1936, começou a preparar a despedida. Prematuramente. Problemas físicos impediram-no de estar na final do Campeonato de Portugal de 1930, contra o Barreirense… outros, muito mais graves, afastá-lo-iam do terceiro título do seu clube, em 1935, frente o Sporting. Vítima de flebite, ainda se sujeitou a operação cirúrgica… poucas foram as melhoras, e o adeus surgiria num jogo contra o Sporting. Nas Amoreiras o Benfica ganhou por 4-2... dois dos tentos tiveram a sua assinatura, ambos em golpes de cabeça para trás, com um brilhantismo tal que, no último, até Artur Dyson, guarda-redes leonino, lhe bateu palmas!

Tragédia em Munique - Avião com equipa do Manchester United despenhou-se

A 6 de Fevereiro de 1958, o Manchester United e o futebol inglês sofriam um duro golpe: o avião que transportava a equipa desde Belgrado, onde garantira a passagem às meias-finais da Taça dos Campeões, despenhou-se no aeroporto de Munique, cumprida a escala no regresso a casa.
No momento de levantar voo para Manchester, o aparelho não ganhou a altura necessária, chocando, violentamente, com um prédio situado no fim da pista.
Morreram 23 pessoas, entre as quais oito jogadores de uma equipa ameaçadora no contexto internacional, denominada bebés de Busby. Geoff Bent, Roger Byrne, Eddie Colman, Mark Jones, David Pegg, Tommy Taylor e Billy Whelan tiveram morte imediata, enquanto Duncan Edwards, considerado um dos futebolistas ingleses mais talentosos do século, entrou em coma, sucumbindo15 dias depois. Jackie Blanch-Flower e Johnny Berry sobreviveram mas não voltariam a jogar.
Esta tragédia marcou claramente o Manchester United e a selecção inglesa, que tinha garantido, com facilidade, o apuramento para o Mundial. A Inglaterra, que parecia sair da crise em que caíra, passou pela Suécia sem grande glória, cometendo apenas o feito de empatar com o Brasil (0-0), mas falhando a qualificação para a fase decisiva da prova.
Quanto ao United, que possuía uma das melhores equipas da Europa, mergulhou na depressão que facilmente se compreende, deixando sem resposta uma dúvida que a catástrofe eternizou: como teriam sido os primeiros anos da Taça dos Campeões (cinco vitórias consecutivas do Real Madrid), se a jovem equipa de Matt Busby se mantivesse intacta?
Busby assumira o comando do Manchester em 1945. Sobreviveu, tal como Bobby Charlton, ao desastre de Munique e deitou mãos à obra. Dez anos depois, conquistava o ceptro europeu (vitória sobre o Benfica por 4-1).
A 14 de Janeiro de 1969 anunciou a retirada para o final dessa época. Foi o que fez, para reassumir, temporariamente, o comando da equipa em 1970/71. A partir de então, foi director e subsequentemente presidente do clube.
Morreu em 1994, com a idade de 84 anos, um dos maiores nomes do futebol do século XX.

Fotos do Acidente

Vídeo - Tragédia em Munique (1958)

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Mariano Amaro - Boémio e Fadista

Meio profissional, meio boémio, trocista com ares de fadista, andar gingão, Mariano Amaro tornou-se uma das mais poéticas figuras da Lisboa fervilhante dos anos 30 e 40. Porque não era apenas um notável jogador de futebol…. era um amante dos prazeres da vida que Aurélio Márcio descreveu assim: «Treinava-se de manhã, passava à tarde pelo café Nicola, saía com a rapariga que escolhia entre as muitas que se lhe davam, terminando a noite na jogatina. E sobre tudo isto, era um jogador excepcional
Quando ingressou no Belenenses, oriundo do Adicense, abandonou o seu ofício de torneiro de metais. Espalhou-se depressa o génio. Que Vítor Santos retrataria assim: «Mariano Amaro foi um pequeno Einstein da bola que, sem o menor esforço ou consumidora determinação, descobriu a quarta dimensão do jogo, dando-lhe uma amplitude que talvez nenhum outro jogador português soube, primeiro, imaginar e, depois, explorar como seria aconselhável. Ficaram célebres os seus passes e cruzamentos, em especial aquele varar de campo com a bola (uma bola verdadeiramente com olhos), a surgir atrás do defesa e à frente do extremo, no flanco contrário. Aquilo era do Amaro, apenas do Amaro, um jogador que dominava o campo como Rommel dominou o deserto